Regina Ripamonti

Atualidades e Meio Ambiente

Róber Bachinski, mapeamento do uso de animais e alternativas no ensino superior no Brasil

Primeiro brasileiro a receber o Lush Prize e o único não-europeu reconhecido na categoria Jovem Pesquisador, fala sobre o uso desnecessário de animais pelas universidades e a banalização do sofrimento animal

  mar 24, 2015     16:15
Róber Bachinski, mapeamento do uso de animais e alternativas no ensino superior no Brasil
Róber Bachinski, já iniciou sua carreira acadêmica afirmando seus princípios éticos e escrevendo uma parte da história desse país na defesa da causa animal. Atualmente, entre outras coisas, além de um formador de opinião, auxilia alunos e universidades a encontrar alternativas à utilização animal.

Em 2006, foi o precursor no Brasil a reivindicar judicialmente o direito de não frequentar as aulas que incluíam testes com animais. Apesar de ganhar a causa, acabou sendo hostilizado por colegas e professores, dentro da instituição UFRGS. É Mestre em Saúde Pública e Meio Ambiente pela Escola Nacional de Saúde Pública (Fiocruz) e doutor em Ciências e Biotecnologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Em 2014, foi o primeiro brasileiro a receber o Lush Prize e o único não-europeu reconhecido na categoria Jovem Pesquisador. Recebeu uma lebre em cerâmica criada pela escultora Nichola Theakston e cerca de R$ 30 mil, investidos no projeto de mapeamento e sugestão de métodos alternativos para aulas práticas nas universidades. O projeto tem por objetivo mapear os cursos universitários que usam animais e sugerir métodos alternativos adaptados à realidade brasileira a partir do trabalho que já é realizado em outras universidades brasileiras.

Segue entrevista realiza pela NetVet News:

Qual momento você julga ter sido o mais difícil até a conquista de seu direito garantido com a ação à objeção de consciência?

Todo o processo de um aluno que se nega a seguir o status quo, o determinado padrão, em uma universidade, é difícil. No meu caso, não foi apenas após peticionada a ação, mas desde as tentativas de diálogo dentro da universidade. A nossa educação não é libertária e ela serve, consciente ou não, como mecanismo de manutenção do paradigma vigente, no caso específico com o que eu trabalho, o paradigma do modelo animal. Assim, o nosso sistema de ensino é muito opressor, por parte do sistema, dos professores e dos estudantes que concordam com o paradigma vigente ou que agem por medo de represália partindo desse paradigma. Somente os estudantes que conseguem identificar esse paradigma, se deslocar para fora e ver que existem outras possibilidades, poderão trabalhar em um novo paradigma e criticar o sistema atual. Infelizmente esses estudantes, muitas vezes, se sentem obrigados a desistir dos cursos e a mudança não ocorre. Em certo momento, na minha graduação, me vi isolado da maioria dos colegas, isso por uma questão de exclusão socio-ideológica, mas também como uma auto-proteção devido as ofensas diárias. Somente os estudantes que passam por essa situação sabem o quão difícil é esse momento. Mas é importante que eles continuem nos seus cursos para que possam trabalhar em uma ciência humanitária, mais tecnológica, segura e preditiva, que o paradigma atual que utiliza animais.

Qual seu projeto pelo qual você foi premiado? O que é o 1Rnet?

O nome do projeto é "mapeamento do uso de animais e alternativas no ensino superior no Brasil". 1Rnet é um grupo de divulgação de informações e suporte para professores e estudantes sobre educação humanitária e metodologias de ensino sem a utilização de animais. Esse grupo foi uma ideia do Prof. Thales Tréz, que já participava da InterNICHE. Atualmente nós estamos ampliando o grupo para trabalhar também na pesquisa e de forma acadêmica, através da formalização em uma organização do terceiro-setor. O grupo hoje possui 7 integrantes, seis deles são doutores em diferentes áreas (bioquímica, fisiologia, imunologia, educação, ética, biotecnologia) e uma doutoranda em biotecnologia. A ideia do grupo é trabalhar para unir a sociedade, a academia e o governo através de atitudes colaborativas com embasamento científico. Vamos manter a sigla 1Rnet juntamente com o nome "Instituto De Promoção E Pesquisa Para Substituição Da Experimentação Animal". Em 1959, Russell and Burch lançaram o conceito dos 3Rs no livro "The Principles of Humane Experimental Technique". Os 3Rs são referentes a ideia de Reduzir o número de animais, Refinar os testes e a criação de animais (por exemplo, através do bem-estar animal, diminuir dor, melhorar a criação, etc) e Substituir o uso de animais (Replacement - substituição). Embora apoiamos e não neguemos a importância da redução e refinamento dos testes em animais, hoje sentimos a necessidade de investir no R do replacement (substituição), desde a formação científica até mesmo auxiliando a formação de um novo paradigma científico, dentro do conceito da Toxicologia do Século XXI. Então, 1Rnet é uma a formação de uma rede focada em promover o desenvolvimento de uma ciência sem o modelo animal. Essa ciência é tecnológica, preditiva e humana.

Qual o objetivo do seu projeto atualmente e para o futuro?

No final do projeto queremos desenvolver um e-book com as informações sobre o uso de animais no ensino superior no Brasil, quantos animais são utilizados, para quais aulas, em quais universidades. Além disso, queremos levantar quantos cursos utilizam métodos alternativos e quais deles desenvolvem os próprios métodos. Queremos fazer com que essas informações cheguem ao público para divulgar os métodos alternativos e também, se baseando nos objetivos das aulas práticas com animais, propor protocolos alternativos adaptados à realidade brasileira. Com essas informações, o governo e as universidades poderão se organizar para gerar políticas públicas e melhorar o ensino no Brasil. Os alunos poderão escolher os cursos conforme a abordagem metodológica e os professores poderão experimentar novas aulas práticas sem o uso de animais.

Você recebeu o prêmio Lush Prize. Qual o objetivo dele atualmente e para o futuro?

No final do projeto queremos desenvolver um e-book com as informações sobre o uso de animais no ensino superior no Brasil, quantos animais são utilizados, para quais aulas, em quais universidades. Além disso, queremos levantar quantos cursos utilizam métodos alternativos e quais deles desenvolvem os próprios métodos. Queremos fazer com que essas informações cheguem ao público para divulgar os métodos alternativos e também, se baseando nos objetivos das aulas práticas com animais, propor protocolos alternativos adaptados à realidade brasileira. Com essas informações, o governo e as universidades poderão se organizar para gerar políticas públicas e melhorar o ensino no Brasil. Os alunos poderão escolher os cursos conforme a abordagem metodológica e os professores poderão experimentar novas aulas práticas sem o uso de animais.

Quais Universidades brasileiras você acredita que estejam na vanguarda em relação utilização de novas metodologias e que sejam um modelo a ser seguido pelo abandono completo da vivissecção?

Em relação a aulas práticas, temos, por exemplo, a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, que substituiu o uso de animais mortos para aulas de anatomia, cirurgia e ortopedia por cadáveres de animais obtidos de fontes éticas (cachorros que morreram naturalmente ou foram eutanasiados em casos de doenças terminais). A prof. Júlia Matera juntamente com a sua aluna Rosana Silva, em 2003, desenvolveu uma técnica de conservação de cadáver que mantem a mesma textura e coloração dos tecidos de animais vivos, além do cadáver poder ser utilizado até por 1 ano e congelado e descongelado de 6 a 12 vezes. Isso diminui muito a necessidade de cadáveres. Outro exemplo, é a Faculdade de Medicina da UFRGS, que substituiu todas as classes com animais em 2007, com um laboratório modelo de técnica cirúrgica com manequins. A UFBA também trabalha na geração de manequins na faculdade de Medicina Veterinária. A UFF, nas aulas de fisiologia não utiliza animais no ensino, e algumas aulas de Biologia Celular também são dentro do contexto de problematização, fazendo os alunos aprenderem biologia celular dentro da aplicação em pesquisas in vitro, associadas com a Toxicologia do Século XXI. Certamente há muitas outras iniciativas no Brasil que devem ser levantadas e divulgadas.

Em sua opinião, quais Universidades você julga apresentarem as melhores inovações em alternativas metodológicas de ensino e por que?

Nós não temos o dado da aplicação das aulas alternativas nas universidades. Porém ainda há muita resistência por parte dos professores em dialogar com os alunos objetores, ou seja, aqueles alunos que não querem utilizar animais. Isso cria um ambiente conflituosos, enquanto essa energia poderia ser canalizada para iniciar o aluno em pesquisas, desenvolvendo novos materiais e trabalhando de forma colaborativa.

O que você costuma aconselhar aos alunos que enfrentam a problemática de ter seu sentimento ético violado dentro de suas Universidades?

Primeiro passo é conversar com os professores. Muitos professores não gostam de usar animais, mas eles acreditam que aquela é a melhor maneira, ou a única que conhecem, de auxiliar os estudantes a fixarem o conteúdo. Foi assim que a geração de hoje de professores foi formada, então eles ainda estão nesse paradigma. Além dessa formação o professor dentro de uma universidade tem muitas tarefas: preparar aulas, fazer e orientar pesquisas, trabalhar na extensão universitária e cargos administrativos. É difícil para eles começar a pensar em um outro paradigma, com diferentes formas de ensino, ainda mais com pouco tempo. O estudante objetor deve entender isso e trabalhar de forma colaborativa. Propor para o professor começar uma linha de pesquisa, ou uma iniciação científica no tema. Assim, ambos estarão trabalhando de forma colaborativa para a mudança das aulas e a formação de novos estudantes em uma ciência avançada. Mas para isso, o professor deve estar disposto a ouvir e entender o estudante. Caso não haja esse caminho aberto, o estudante objetor deve sempre lembrar que a Constituição protege os cidadãos de terem seus princípios éticos violados. Nesse caso, cabe um recurso chamado Objeção de Consciência, por via administrativa. Esse processo não objetiva cabular aula, ou se eximir de responsabilidades estudantis, mas proteger os princípios do aluno, fazendo com que o professor desenvolva metodologias alternativas para o estudante. Quando eu cursei biologia, não havia muitas informações para me orientar, inclusive como colaborar com os professores e fazer uma iniciação científica na área. Métodos Alternativos era um tema não muito discutido no Brasil. Então, minha relação com os professores, diversas vezes, era bastante conflituosa. Esse certamente não é um bom caminho para nenhum dos grupos. Hoje, oriento os estudantes e professores ao diálogo e a colaboração. Porém, também na minha época, esse dialogo era complicado por parte dos professores e da universidade. Meu processo interno foi negado, dizendo que todos os estudantes deveriam fazer o que os professores solicitassem, e então recorri à justiça para ter meus direitos constitucionais preservados.

Qual o seu trabalho atualmente? O que planeja para o futuro?

Eu terminei o doutorado em Ciências e Biotecnologia na UFF, onde tive muito apoio por parte do curso e dos meus orientadores, que estão muito interessados nessa área. Agora, quero seguir a área de pesquisa e também me dedicar ao 1Rnet, para financiar outros projetos, incentivar pesquisas em uma nova ciência (dentro do conceito da Toxicologia do Século XXI), auxiliar professores e estudantes e contribuir com o desenvolvimento e popularização desse novo paradigma científico. Nós já tivemos a reunião de constituição do 1Rnet - Instituto de Promoção e Pesquisa para Substituição da Experimentação Animal e temos várias ideias de projetos, como cursos para professores e estudantes, apoio para congressos, etc.

Qual a finalidade do Interniche?

A InterNICHE é uma organização internacional que incentiva a aplicação de métodos humanitários de ensino, ou seja, métodos que não desrespeitem os humanos e os animais. Hoje a InterNICHE não possui grupo relacionado no Brasil. Porém trabalhamos, a 1Rnet, em colaboração com a InterNICHE em alguns projetos específicos.

Como você vê a aplicação da LEI Nº 11.794/2008, também conhecida como Lei Arouca, que revogou a Lei no 6.638/1979?

A Lei Arouca (Lei Nº 11.794/2008), revogou a Lei 6638/1979 mas continua com o mesmo conteúdo. O diferencial é que cria o CONCEA (Conselho Brasileiro para Controle da Experimentação Animal). Acredito que pela primeira vez, foi criado um órgão para responder pelo governo sobre a experimentação animal e isso é positivo. Porém o Brasil, não apenas na questão da experimentação animal, deve aprender a trabalhar com os outros setores. Devemos unir os três setores (governamental, empresarial e social) e discutir políticas públicas para avanço humanitário e tecnológico.

Saiba mais:
CONCEA - Resolução Normativa nº18/2014
1Rnet - Inst. para Pesquisa e Promoção da Substituição dos Exp. em Animais - Facebook




Autor

Regina Ripamonti

Formada em Biologia e Pedagogia e com mais de 25 anos de atuação na área de Educação, Regina Ripamonti usará seu espírito investigativo e crítico para trazer assuntos de interesse veterinário e de educação ambiental, na busca de redefinição das relações do ser humano com o meio ambiente e a reafirmação de sua interdependência.

Relacionados

Comentários

Este post não possui nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar.

Deixe seu comentário

 


  Respondendo ...