Regina Ripamonti

Atualidades e Meio Ambiente

Lóris não querem cócegas, nem abraços

É impossível não ficar encantado com um Lóris. Quando eles nos olham parecem estar pedindo por ajuda, porém para ajudá-lo precisamos conhecê-lo, pois as aparências podem realmente enganar

  jul 01, 2015     19:55
Lóris não querem cócegas, nem abraços
Juntamente com outras espécies de Lóris (Nycticebus coucang e Nycticebus bengalensis), o Lóris-lento de Java (Nycticebus javanicus, ou Javan slow loris) é uma das espécies de primatas protegidas mais comuns encontrados em mercados de animais em Java e se encontra em perigo de extinção.

Esses animais são facilmente capturados por terem hábitos noturnos e dormir em florestas de bambu, manguezais e plantações de cacau, que podem ser cortados ou ser facilmente acessados. Além disso, locomovem-se lentamente através de cipós e lianas, em vez de saltarem.

Na grande maioria das vezes são capturados com a finalidade de servirem como animais de estimação no mercado interno da Indonésia, Oriente Médio, Japão, mas seu contrabando tem se estendido e popularizado pela ação de vídeos que atuam como uma espécie de merchandising.

Seu comércio também está relacionado à medicina popular, à magia negra, ao consumo de carne de caça e em diversas cidades asiáticas são utilizados para atrair turistas a pagarem para "tirar fotos" com eles.

A caça furtiva, o comércio ilegal e o tráfico de animais exóticos representam uma ameaça perigosa à sobrevivência da espécie, por causa das técnicas de manejo inadequadas, geralmente feitas em caixas ou sacos, principalmente durante o transporte, por receberem invariavelmente má alimentação, pela atividade diurna forçada, além do manuseio excessivo e pela extração dos seus dentes, que resultam em infecções e uma alta taxa de mortalidade precoce.

De acordo com a International Union for Conservation of Nature (IUCN), está classificado como "em perigo" de extinção. Está incluído, desde 2008, na lista dos 25 primatas mais ameaçados do mundo. É protegido por lei na Indonésia desde junho de 2007, e consta no Apêndice I da CITES. Apesar dessa proteção, assim como sua presença em diversas áreas protegidas, a destruição de seu habitat ainda é sua maior ameaça e a sua caça continua.

Exsudato tóxico
O Lóris-lento é a única espécie de primata considerada venenosa. O exsudato produzido por uma glândula localizada na região braquial é o responsável por esse "título". Para que o exsudato tóxico tenha ação como repelente de insetos, o Lóris-lento lambe a área onde ela é secretada, a mistura na boca com saliva e a espalha por todo o corpo. Além disso, a maioria dos primatas noturnos, inclusive o Lóris-lento, têm o sentido do olfato muito apurado, assim o exsudato também serve para avisar outros Lóris-lentos do perigo, estresse ou perseguição.

Quando o animal é perturbado ou manuseado, ele secreta cerca de 10 microlitros (µl) de líquido claro, com cheiro forte na forma de exsudado, expelido por glândulas apócrinas da região braquial. Esse exsudato assemelha-se ao alérgeno encontrado na saliva e glândulas sebáceas do gato doméstico. A glândula braquial já se mostra ativa em Lóris a partir de 6 semanas de idade, de ambos os sexos.

Ao sentir-se perturbado, o Lóris-lento assume uma postura defensiva dobrando a cabeça para baixo, pondo-a entre as patas dianteiras levantadas e esfregando o exsudato por sua cabeça e pescoço. Ele é usado como sinalização olfativa para transmitir ideia de invasão da individualidade e do "território" e tem como função, deter os predadores.

Ao necessitar defender-se, ou à sua prole, tentará morder seu predador. Como frequentemente lambem a região da glândula, ao ferir o predador com a mordida, as toxinas presentes na saliva, irão atingir a corrente sanguínea, fazendo o ferimento além de doloroso, possível de apresentar necrose (morte de um grupo de células, ocorrendo a perda da permeabilidade, com resposta inflamatória e células tumeficadas) e hematúria (presença de sangue na urina). Há também a possibilidade de choque anafilático e já foram registrados alguns casos fatais em seres humanos.

Animais venenosos são aqueles que produzem substâncias tóxicas ou venenosas, mas não possuem nenhum órgão ou aparelho inoculador. O envenenamento é passivo e pode ocorrer por contato, compressão, inalação ou ingestão.

Animais peçonhentos são os que para caçar ou se defender têm a capacidade de inocular substâncias tóxicas produzidas em glândulas especializadas de seu corpo. Essas glândulas de veneno se comunicam com dentes, ferrões, aguilhões ou esporões, permitindo injetar as toxinas ativamente no organismo de outro animal.

Dentes
O Lóris-lento possui dentes em forma de agulha, como uma pá, em sua mandíbula inferior. Esses dentes são chamados de pentes dentários ou pentes de dentes. Uma mordida de um Lóris-lento é dolorosa devido a esses dentes pontiagudos.

Para evitar suas mordidas, os traficantes cortam ou removem seus dentes, em condições de higiene precárias que obviamente, podem gerar infecções e muitas mortes. Em um estudo de dois anos com 11 animais confiscados após essa prática, apenas dois sobreviveram, pois a falta dos dentes torna sua reintrodução à vida selvagem inviável.

Os vídeos e as cócegas
Vídeos que retratam o Lóris-lento como animal de estimação, incitam ou reforçam a vontade das pessoas de adquiri-los, o que é ilegal. O primeiro vídeo que se tornou "viral", foi visto por mais de 10 milhões de pessoas em 2009. Ele mostrava um Lóris-lento em um flat na Rússia, com as mãos levantadas. Essa atitude foi interpretada como se ele parecesse gostar de ser acariciado e quisesse que o fizessem sentir cócegas em suas axilas.

Porém a razão para que ele levantasse os braços, era no fundo oposta. Sentindo-se amedrontado, o animal expunha sua glândula braquial, para defender-se da "agressão", ou melhor, da tortura de ser acariciado sem desejar. Ele tem como reação expulsar o exsudato para transmitir que o humano está invadindo seu território e dessa forma tentar repeli-lo.

Porém a exposição dessas imagens, acompanhada de desinformação, fizeram com que outros vídeos semelhantes aparecessem pela internet, tornando o Lóris-lento, o animal mais pesquisado na Wikipédia e extremamente cobiçado como animal de estimação.

Existiram rumores de que esses vídeos poderiam ser benéficos, pois aumentariam a conscientização sobre eles. A pesquisadora Anna Nekaris, investigou os comentários que as pessoas fizeram ao longo dos 33 meses em que o vídeo permaneceu no ar. Ela descobriu que o comentário mais citado era "Eu quero um". Outras consideravam que os Lóris teriam uma vida melhor como animais de estimação porque conseguiriam comida facilmente e estariam protegidos contra predadores. As pessoas não percebiam que os animais filmados estavam obesos, incomodados com a luz, que podiam cegá-los e em situação de estresse.

"Na verdade o Lóris estava em uma posição de defesa, ele queria morder e envenenar a pessoa que o estava acariciando, mas elas achavam que o animal parecia feliz".
Anna Nekaris, pesquisadora

Os Lóris não conseguem se reproduzir bem em cativeiro, de onde conclui-se que a maioria dos animais que aparecem nas imagens desses vídeos foram retirados da natureza e estão em situação ilegal.

Para Nekaris, o YouTube deveria de dar a opção para marcar vídeos de abuso com animais como ilegais e, em último caso, tirá-los do ar. Seu objetivo é converter as milhares de pessoas que desejaram um Lóris-lento como animal de estimação, em milhões de pessoas que lutem para salvá-lo. E podemos começar a ajudá-la compartilhando vídeos que possam fazer a diferença no combate ao tráfico de animais.

Para saber como ajudar os Lóris-lentos, visite a página do The Little Fireface Project (LFP) da Nocturnal Primate Research Group.

Assine a petição:
Tickling is Torture (Cócegas são Tortura). Este projeto de conservação é liderado por Anna Nekaris em parceria com a International Animal Rescue's (IAR).

Video da campanha IAR:
The Jungle Gremlins de Java - 2012 - BBC e Animal Planet.
Esse vídeo acompanha a Prof.ª e pesquisadora Anna Nekaris, que estuda o Lóris-lento desde 1993. Nele ela explica com as mordidas do Lóris-lento se tornam venenosas. Ao mesmo tempo, ela enfrenta os desafios da preservação dessa espécie e encara o comércio ilegal de animais de estimação. O filme ainda destaca como os vídeos do YouTube estão impactando a conservação desses primatas frágeis. Prêmios: Hugo de Prata de Ciência/Natureza na categoria documentário 2013 no Chicago International Film Festival Television Awards; Mérito global de comportamento de defesa e animal; Melhor da categoria do Ambiente no Wildlife Film Festival Internacional de Missoula, Montana; Prêmio de Melhor Programa de História Natural no Royal Television Society Awards, no oeste da Inglaterra.

Natural World: 2011-2012 - Jungle Gremlins of Java
Mysteries of slow loris toxin
Ingesting poison
Going undercover
Poisoning predators
Natural pesticide
Collecting toxin

Outros vídeos importantes:
Do you still want to buy a Slow loris?
Little Fireface Project
Slow loris
Slow Loris Conservation in Java - International Animal Rescue (IAR)
Slow Loris Little Fireface Project Documentary by Muhammad Taufik
Loris : Documentary on the Slow Loris of Borneo
The journey to save Java's Jungle Gremlins

Saiba mais:
Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas
No Photos, Please!
Agony and Ecstasy as Thailand Moves Towards Better Animal Welfare
Bite for survival - BBC Earth, wildlife magazine: Anna Nekaris
Slow loris - Nycticebus
Anaphylactic Shock Following Bite by a 'Slow Loris,' Nycticebus Coucang
Javan Slow Loris - Nycticebus javanicus É. Geoffroy, 1812
Are slow lorises really venomous?
Talking Defensively, a Dual Use for the Brachial Gland Exudate of Slow and Pygmy Lorises; Lee R. Hagey, Bryan G. Fry, Helena Fitch-Snyder




Autor

Regina Ripamonti

Formada em Biologia e Pedagogia e com mais de 25 anos de atuação na área de Educação, Regina Ripamonti usará seu espírito investigativo e crítico para trazer assuntos de interesse veterinário e de educação ambiental, na busca de redefinição das relações do ser humano com o meio ambiente e a reafirmação de sua interdependência.

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