Paulo Amaral

Fauna Silvestre

Dimensões Humanas da Conservação e Manejo da Vida Selvagem: uma nova disciplina

Pesquisador lança uma nova disciplina com foco nas interações entre fauna silvestre e a exposição da figura do homem ao seu real grau de responsabilidade diante da conservação dos animais selvagens

  abr 07, 2015     15:24
A boa ciência é autorreflexiva e sempre contemporânea. Quer dizer, faz perguntas, duvida de si própria e caminha no presente, vislumbrando o futuro, mas sem perder a base estabelecida por ela mesma no passado. Por que escrevo isso? Porque um grande pesquisador da área ambiental lançou uma nova disciplina no meio acadêmico. Seu nome é Silvio Marchini e a disciplina se chama Dimensões Humanas da Conservação e Manejo da Vida Selvagem. As mudanças ocorridas na relação sociedade humana/fauna silvestre, por várias causas, nos últimos anos, levaram esse cientista a elaborar uma nova matéria no âmbito da Biologia da Conservação.

Apesar do longo nome, seu escopo é relativamente simples: trata do que os seres humanos podem fazer, a partir de ações protagonizadas por eles próprios, para conservar a fauna silvestre. Está embutido no sentido do verbo "conservar" o outro verbo do nome da nova disciplina: manejar. Manejar para conservar. Ou até mesmo não manejar. Não agir já é uma forma de ação. Em determinadas situações a não-ação é mais eficaz do que uma interferência direta no problema.

Há muito tempo se estuda a fauna silvestre. Há muito tempo pesquisadores se põe a campo para coletar dados sobre as espécies. Sabe-se muito sobre o ciclo de vida, o ciclo reprodutivo, a distribuição espacial, o número de filhotes, a gestação, o perfil sanguíneo, a dieta e muitos outros parâmetros biológicos e ecológicos inerentes aos animais selvagens. O que é novo nessa disciplina é seu foco nas interações entre fauna silvestre e comunidades humanas e a exposição da figura do homem ao seu real grau de responsabilidade diante da conservação dos animais selvagens.

Na rotina do meu trabalho estou continuamente em contato com essas duas percepções: uma é o conhecimento de dados científicos sempre atualizados que mostram o comportamento, a distribuição espacial e outras informações específicas dos carnívoros silvestres; a outra é o comportamento dos homens em relação aos carnívoros silvestres quando estes interferem nas atividades produtivas humanas. Explico: trabalho num centro de pesquisas federal (CENAP - Centro Nacional de Pesquisa e Conservação dos Mamíferos Carnívoros) e uma das minhas atribuições é cuidar dos casos de conflito. Explico de novo: conflito é a situação que se estabelece quando um carnívoro silvestre ataca criações domésticas ou passa a rondar uma área onde moram pessoas, provocando temor na população.

Praticamente, desde que surgiram sobre a Terra, com algumas variações adaptativas, os carnívoros silvestres se comportam da mesma maneira. O mesmo não pode ser dito sobre o Homo sapiens. Daí a tal responsabilidade, a dimensão humana determinante na relação. Somos nós que podemos mudar o comportamento, nos adaptar, conviver com a fauna de maneira harmônica. No atual estágio de conhecimento do mundo natural, diante das demandas recebidas devido à depredação da natureza e da biodiversidade, essa disciplina chega para estabelecer uma nova abordagem do problema ecológico, no tocante aos cada vez mais constantes encontros entre comunidades humanas e fauna silvestre.




Autor

Paulo Amaral

Médico Veterinário, Analista Ambiental do CENAP/ICMBio com especialização em Jornalismo e Divulgação Científica.

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Comentários

  1. visitante

    Silvio     abril 17, 2015    10:13

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    Muito obrigado Paulo Amaral e Netvet pelo artigo! Ele certamente faz uma contribuição importante para o movimento de implementar, fortalecer e disseminar no Brasil a abordagem de Dimensões Humanas. Aproveito para esclarecer que Dimensões Humanas, como disciplina e aplicação, foi criada entre os anos 70 e 90 nos Estados Unidos. É relativamente nova; o primeiro periódico internacional dedicado exclusivamente ao tema só foi lançado em 1996 e o primeiro livro-texto, escrito por Daniel Decker, foi publicado em 2001. É uma abordagem promissora no Brasil devido à crescente importância de temas como conflitos envolvendo fauna nativa ou exótica, conflitos de interesse no uso e manejo de recursos naturais, incluindo turismo e recreação em áreas naturais, manejo participativo de recursos, tráfico de animais silvestres, e impactos da fauna sobre a saúde, segurança e qualidade de vida. É uma abordagem promissora também justamente pela falta de capacidade técnica em pesquisa social entre nossos conservacionistas e gestores de fauna. Meu papel tem sido tão somente o de adaptar a abordagem ao nosso contexto e disseminá-la entre estudantes e colegas profissionais da área.

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