Regina Ripamonti

Atualidades e Meio Ambiente

Cresce o número de animais envenenados

Atrocidades contra animais são cometidas a todo instante e justamente por isso é que temos o dever de nos posicionar e exigir providências para coibi-las

  ago 11, 2015     15:50
Cresce o número de animais envenenados
Infelizmente muitas pessoas acreditam que o desrespeito à vida de um outro animal não é condenável, afinal nossas leis ainda tratam as demais espécies de animais como se fossem seres inferiores. Os envenenamentos lideram os casos que ocorrências com mortes abruptas, seguidos por mortes por atropelamento.

Os gatos são as principais vítimas de envenenamentos, propositais ou não, além de outros tipos de violência. Porém, as clínicas recebem mais casos de cães envenenados, por que os gatos por serem mais autônomos e costumar passear sozinhos, acabam ingerindo veneno fora de casa e morrendo sem socorro. Quando os gatos ingerem ratos infectados com veneno consequentemente também são intoxicados.

Já os cães, geralmente são envenenados no próprio quintal ou em passeios junto ao tutor, o que facilita a descoberta do envenenamento e portanto seu tratamento. No caso de animais não tutelados nem sequer registra-se a ocorrência.

Principais substâncias envenenadoras de cães e gatos no Brasil

Chumbinho, Aldicarb, Temik 150, Raticida Japan ou Mil Gatos

Chumbinho é o nome mais popular para esse veneno, que dependendo da região ainda é conhecido por Aldicarb, Temik 150, Raticida Japan ou Mil Gatos. Ele recebe esse nome, porque o produto não diluído tem a aparência de pequenas esferas de chumbo. Consiste em um produto elaborado com o Carbamato Aldicarb, inicialmente produzido pela Bayer para ser utilizado como agrotóxico. Por décadas, esse produto fez incontáveis vítimas humanas, em especial crianças e animais de outras espécies.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), limitou-se inicialmente a solicitar à Bayer que incluísse um amargante em sua composição. Porém, esse agrotóxico se fazia letal até mesmo pela inalação e posteriormente foi proibida. O popularmente chamado Chumbinho, passou a ser produzido clandestinamente e também a partir de diversos outros organofosforados.

O Chumbinho é utilizado ineficientemente como raticida, pois o rato morre imediatamente após ingerir o alimento envenenado, ou seja, próximo ao alimento contaminado. Os ratos têm por hábito, que o mais velho se alimente primeiro. Ao vê-lo morrer, os outros mais jovens rejeitam o alimento.

Como é produzido clandestinamente, ou seja, sem registro, o Chumbinho não possui rótulo com orientações quanto ao manuseio e segurança. E o que é ainda mais grave, não possui uma fórmula única com o mesmo nome, gerando imensas dificuldades para que se empregue um antídoto.

Esse veneno também pode matar todos os animais que estiverem dentro da sua cadeia alimentar. No Brasil, cerca de 200 mortes de crianças ainda são registradas anualmente, por causa do emprego desse veneno. Segundo a Anvisa, o produto é responsável por quase 60% dos 8 mil casos de intoxicação humana anualmente. Seu uso também está relacionado intensamente a assassinatos, suicídios e morte por intoxicação. O perigo desse veneno é que ele não se degrada, passando do corpo do animal a contaminar inclusive o lençol freático.

De 5 a 10 minutos após ter contato com o Chumbinho, o animal geralmente apresentará salivação, vômitos, diarreia, convulsão, prostração ou inquietação, tremor pelo corpo, falta de coordenação, dispneia, hemorragias nasal e oral, fraqueza, pupilas contraídas, podendo apresentar outros. Dependendo do tamanho do animal e da quantidade de toxina assimilada haverão lesões nos pulmões, fígado e rins e segue-se de parada cardíaca e morte.

Composto 1080 ou Mão-branca

Recebeu essa sigla por ser, de uma série de mais de 1000 compostos pesquisados como raticida, ser o de número 1080. O veneno conhecido como Composto 1080 ou Mão-branca (Fluoroacetato de sódio, fluoracetato de sódio ou monofluoracetato de sódio) é considerado perigosíssimo porque é inodoro, insípido, translúcido quando diluído em água e é letal em mínimas doses. Além disso, também é mortal se ingerido, inalado ou absorvido pela pele e não possui nenhum antídoto conhecido. No Brasil, foi largamente utilizado como raticida e desde 1982, sua fabricação, comercialização e portanto seu uso, são proibidos.

Em animais domésticos e no ser humano, o veneno age no sistema nervoso central, sistema respiratório e coração. Os sintomas aparecem cerca de 30 minutos após a exposição ao produto e a morte pode acontecer entre duas e sete horas. A morte provocada pelo 1080 é difícil de determinar, pois os sintomas se parecem com aqueles de um ataque cardíaco, mas podem ocorrer convulsões e o coma.

O Mão-branca, mata além do animal diretamente envenenado, bem como os outros que estiverem em sua cadeia alimentar. Este veneno foi o causador de 70 mortes de animais no Zoológico da cidade de São Paulo em 2004.

Estricnina

A estricnina é um alcalóide natural, obtido a partir das sementes secas de Strychnos nuxvomica e de Strychnos ignatiti. No Brasil sua fabricação e venda são proibidas de acordo com a Portaria da Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária Nº 12 de 17/07/1980, em seu inciso I (Proibir a partir desta data a fabricação e a venda dos produtos que contenham em sua fórmula, isolada ou associada a substância estricnina e seus compostos. Publicada na página 25, Seção 1, do Diário Oficial da União, de 24/07/1980). Apesar da estricnina figurar na lista da ANVISA de substâncias banidas no país, ainda existem locais que comercializam esse veneno ilegalmente.

Com o envenenamento por estricnina os primeiros sintomas serão ansiedade, tremor, vômitos, hipertermia de difícil controle, podendo ocorrer posteriormente convulsões violentas quase continuas, espasmos inicialmente com a cabeça e o pescoço que se alastrarão para todos os músculos do corpo, sendo que a morte ocorrerá por asfixia.

Tipos de envenenamento

O envenenamento pode ocorrer acidentalmente, ou propositalmente, nesse caso, de forma criminosa. Muitas vezes as intoxicações de pequenos animais se dão por substâncias como produtos de limpeza, desinfetantes, ceras, inseticidas e principalmente por medicamentos. Muitos tutores medicam seus animais com medicamentos de uso humano, como água boricada e ácido acetilsalicílico, que podem matar. Nos casos em que o envenenamento se dá por inseticidas, os sintomas possivelmente apresentados serão salivação, diarreia, vômito, lacrimação, constrição das pupilas, respiração asmática, contrações musculares, convulsões e posteriormente coma.

Além disso, envenenamentos provocados por mais de um tipo de veneno são uma prática comum, o que dificulta a identificação dos venenos e o socorro rápido. O médico veterinário geralmente tem pouco tempo para reconhecer qual substância intoxicante foi ingerida. Mas é possível através da sintomatologia, ter uma ideia do veneno utilizado. Quando o animal começa apresentar sintomas diversos, é comum que seja administrado vários antídotos juntos.

O envenenamento de animais está previsto na Lei Federal 9.605, de 13/02/98, também conhecida como Lei de Crimes Ambientais.
Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:
§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal.

Decreto-Lei Nº 2.848, de 7/12/1940 ou Código Penal
Art. 278 - Fabricar, vender, expor à venda, ter em depósito para vender ou, de qualquer forma, entregar a consumo coisa ou substância nociva à saúde, ainda que não destinada à alimentação ou a fim medicinal.

Em caso de suspeita de um quadro de intoxicação

Há infinitas substâncias que podem causar a intoxicação. Por isso os sinais clínicos são também variados. Dentre eles, os mais comumente observados são aqueles em ocorrem alterações do estado de consciência como agitação, sonolência, e até o coma. Outros são de origem gastrintestinal como salivação intensa, vômitos, náuseas, dor abdominal, além de hemorragias, tremores, dificuldade respiratória e alteração de ritmo cardíaco.

Na presença desses sinais ou na suspeita de qualquer tipo de intoxicação procure urgentemente ajuda para o seu animal. Os sintomas de intoxicação dependerão da substância tóxica ingerida, de sua quantidade, além das características do animal que a ingeriu. Algumas substâncias ainda, só começam a se mostrar tóxicas se o animal entrar em contato com a mesma de maneira sistemática, o que dificulta levantar suspeita de sua toxicidade.

Como agir em caso de envenenamento

Os animais instintivamente sabem como evitar entrar em contato com produtos tóxicos, mas podem por curiosidade ou descuido entrar em contato com um agente tóxico.

O envenenamento de animais não é raro e pode ocorrer por diversos motivos. Pode ocorrer de maneira acidental, quando o animal ingere determinados medicamentos, plantas tóxicas, produtos de limpeza, tintas, agrotóxicos, inala gases tóxicos, ou ainda, é picado por animais peçonhentos, ingere presas envenenadas ou mesmo é vítima de crime de envenenamento proposital.

1º Investigue em poucos instantes o que pode ter causado a intoxicação, através de pistas. Veja se o animal esteve no jardim, se cavoucou o jardim, se há algum rato morto.

2º Se houver alguma embalagem de produto suspeita, carregue-a consigo. Se houver vômito, colete-o para facilitar a identificação da substância, pelo médico veterinário. No caso de remédios, tente descobrir quantos comprimidos foram ingeridos e há quanto tempo isso ocorreu.

3º Devido à grande possibilidade de substâncias tóxicas, não tome nenhum qualquer procedimento sem conhecimento. Procure imediatamente um médico veterinário.

4º Tenha sempre à mão, a lista de medicamentos da qual seu animal faz uso e informe no ato do atendimento.

Como agir em caso de ameaças de envenenamento

1º) A ameaça por si só já consiste em um crime. Prevista na Constituição Federal, no Código Penal e na Lei de Crimes Ambientais, o crime de ameaça se consuma no momento em que a vítima toma conhecimento da mesma. A ameaça é capaz de intimidar ou de restringir a liberdade psíquica da vítima, com a promessa da prática do mal grave e injusto. Tal crime, deve ser apurado na Delegacia de Polícia, mediante a representação da vítima ou de seu representante legal, que deverá realizar um Termo Circunstanciado ou Boletim de Ocorrência, sob o título de "Preservação de Direitos".

2º É possível consignar-se à denúncia, que em virtude da ameaça, você receie deixar sua residência, sob risco de ao retornar, além do animal doméstico, outros residentes terem sido também intoxicados.

3º Para registrar a ameaça de envenenamento em Termo Circunstanciado ou Boletim de Ocorrência, peça-o sob o argumento de "Preservação de Direitos" e infração ao Código Penal e resguardo dos direitos conferidos pelo art. 5º da Constituição Federal e pela Lei Federal n.º 9.605 de 1998.

Código Penal
Art. 147 - Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave.

Constituição Federal
Título II, Dos Direitos e Garantias Fundamentais, Capítulo I, Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes

Lei Nº 9.605, De 12/02/1998 ou Lei dos Crimes Ambientais
Capítulo V, Dos Crimes Contra o Meio Ambiente, Seção I, Dos Crimes contra a Fauna
Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:

Decreto Nº 24.645, de 10 de julho de 1934, Estabelece medidas de proteção aos animais
Art. 1º Todos os animais existentes no País são tutelados do Estado.
Art. 2º Aquele que, em lugar público ou privado, aplicar ou fizer aplicar maus tratos aos animais, incorrerá em multa de "..." e na pena de prisão "...", quer o delinquente seja ou não o respectivo proprietário, sem prejuízo da ação civil que possa caber.

Diagnostico do agente tóxico

O diagnóstico final de intoxicação é feito a partir de sinais clínicos e análises laboratoriais, enquanto o animal está vivo.

Para um animal com o máximo de 12 horas de óbito e com o corpo refrigerado, o mesmo deverá ser enviado a um Serviço de Patologia Veterinário. O diagnóstico será obtido através do exame necroscópico, resguardado pelo exame toxicológico.
Caso ultrapasse as 12 horas de óbito, recomenda-se o congelamento. Além disso, o tutor deve encaminhar ao veterinário patologista responsável pela necropsia, toda amostra sólida ou líquida encontrada junto ao corpo do animal.

Deve acompanhar também o histórico completo de doenças adquiridas, tratamentos, vacinas, medicamentos em uso e inclusive, fotos dos ambientes onde vivia.

Denúncias

Sempre denuncie locais que vendem substâncias intoxicantes proibidas e envenenamento proposital!
Disque-denúncia em todos os Estados brasileiros

Ouvidoria da Polícia Civil do Estado de São Paulo

Saiba mais:
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Aspectos Toxicológicos de Estricnina, Fluoracetato de Sósio e Aldicarb
Estudo retrospectivo dos casos de óbito por intoxicação em cães e gatos no
Hospital de Clínicas Veterinárias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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Autor

Regina Ripamonti

Formada em Biologia e Pedagogia e com mais de 25 anos de atuação na área de Educação, Regina Ripamonti usará seu espírito investigativo e crítico para trazer assuntos de interesse veterinário e de educação ambiental, na busca de redefinição das relações do ser humano com o meio ambiente e a reafirmação de sua interdependência.

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Comentários

  1. visitante

    Deise     novembro 22, 2017    17:01

    Responder

    Muito boa matéria sobre este assunto, que é tão importante, mas não tem recebido a devida atenção das autoridades.

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