Paulo Amaral

Fauna Silvestre

Convivendo com onças e lobos - II

Cabrito que dorme no curral, fica livre da onça

  jun 24, 2015     11:35
Convivendo com onças e lobos - II
Dando continuidade a minha última postagem nesse blog, retomo o assunto "Conflitos entre proprietários rurais e carnívoros silvestres brasileiros".

Os dois passos a que me referi, para tornar possível a convivência entre carnívoros silvestres e proprietários rurais, são: criar uma proteção reforçada para os animais domésticos e tomar medidas para espantar o predador.

É importante deixar claro que esses passos estão ao alcance imediato do produtor rural. Espantar também é a ação que vai resolver os casos de conflito que se limitam à presença do animal silvestre nas cercanias de sedes de fazendas, das vilas e cidades.

O que leva um carnívoro, uma onça-parda, por exemplo, a atacar uma criação de ovelhas, por exemplo? São dois motivos principais: a fome e a oportunidade. Ela vai se arriscar muito ao se aproximar do curral, ou mesmo ao deixar a mata para pegar uma ovelha no pasto, sabendo que o homem, com seus cães e armas, pode aparecer a qualquer momento. Mas a fome fala mais alto, principalmente se for uma mãe tendo de alimentar a si e seus filhotes.

Mas por que uma onça esfomeada se arrisca dessa maneira? Entra aqui um componente que, mais uma vez, remete à dimensão humana desse relacionamento. Na grande maioria dos casos, é porque a onça não encontra, nas matas onde está segura, presas em número suficiente para saciar a fome. Isso ocorre, principalmente, por causa da caça praticada pelos homens.

Lembrando que essa é uma situação que não está totalmente sob o controle do fazendeiro, mas que é fundamental para a solução do problema: a existência das presas naturais da onça (tatu, veado, cotia etc.) nas matas próximas ao local do conflito. O máximo que ele pode fazer é não caçar e não permitir que cacem na sua propriedade, o que já vale muito. Os outros dois passos, como já disse, estão ao alcance de qualquer criador.

No caso da oportunidade, ela é dada por um sistema de criação desleixado. É comum galinhas dormirem soltas, empoleiradas em árvores nos quintais; ovelhas e bezerros serem deixados dia e noite em pastos enormes, longe das habitações humanas; fêmeas darem à luz no meio da mata e permanecerem com filhotes pequenos e frágeis nos mesmos pastos desprotegidos, à mercê de ataques.

Como proteger os animais de criação? Entre várias medidas, a mais básica é guardá-los durante a noite, em abrigos reforçados, construídos de forma que o predador não consiga entrar neles. E é muito fácil fazer com que os animais domésticos aprendam a se recolher por conta própria, evitando o trabalho diário de guiá-los pro abrigo.

Outra forma de proteção é manter piquetes menores próximos de casas e áreas movimentadas onde as fêmeas, prestes a parir ou com filhotes pequenos, podem ser mantidas. Quanto mais protegidos estiverem os animais domésticos, menos oportunidades o carnívoro terá de apanhá-los.

E como "espantar" o carnívoro predador? Principalmente com sons altos e luzes intermitentes. Buzinas de ar comprimido ou a gás são muito eficientes em casos de encontro ou numa ação preventiva. No segundo caso, em áreas que estão sob ataque continuado, antes de anoitecer, depois que os animais estão recolhidos nos abrigos, o fazendeiro pode caminhar pelas bordas de mata soltando rojões, buzinando ou batendo latas. Nos currais e galinheiros, luzes piscando mantém os predadores afastados.

Um ponto precisa ser esclarecido: essas medidas servem muito bem para criações médias e pequenas. Rebanhos enormes de gado vacum, como os que vemos em algumas regiões brasileiras, compartilhando uma área muito grande com onças-pintadas, dificultam esse manejo diário. Mas essa é outra história que ainda pretendo abordar.

Esses métodos de proteção e "de espantar" são múltiplos e variados. E é bom que assim seja, pois os carnívoros podem se "habituar" com a medida adotada e ela deixa de ser eficiente.

Mais informações sobre esse tema, com dicas de proteção e exemplos de métodos para espantar predadores, o leitor encontrará no site do CENAP e no site do Instituto Pró-Carnívoros.




Autor

Paulo Amaral

Médico Veterinário, Analista Ambiental do CENAP/ICMBio com especialização em Jornalismo e Divulgação Científica.

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Comentários

  1. visitante

    William     novembro 14, 2015    19:07

    Responder

    Muito bom, as vezes soluções simples são as que apresentam maior eficiência!

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