Paulo Amaral

Fauna Silvestre

Convivendo com onças e lobos

Conflitos entre produtores rurais e carnívoros silvestres

  jun 03, 2015     18:22
Convivendo com onças e lobos
De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, conflito significa "embate dos que lutam; discussão acompanhada de injúrias e ameaças". Nesse artigo, vou discorrer sobre conflitos, mas não os que ocorrem entre seres humanos, para os quais vale a definição do Aurélio.

Os conflitos entre produtores rurais e carnívoros silvestres se definem quando um carnívoro silvestre começa a ameaçar ou atacar os animais domésticos ou as pessoas. A simples coexistência entre as partes não configura um conflito. Inclusive a coexistência sem prejuízos é o objetivo do tratamento do problema, como será visto mais adiante.

Das atividades pecuárias, as que mais apresentam situações de conflito são as criações de ruminantes e de aves. No primeiro caso, temos que o rebanho é atacado pelas onças, parda e pintada. Em regiões onde vive a onça-pintada, é ela que predomina no território e, portanto, é quem vai atacar os animais domésticos. Geralmente ela procura bezerros e garrotes, mas, dependendo das circunstâncias, pode atacar bovinos adultos, equinos e outros animais que estejam na propriedade (cães, caprinos etc.).

Em regiões onde só existem onças-pardas, são elas que procuram as presas domésticas: ovinos, caprinos, bezerros e potros. A onça-parda, no Brasil, não tem porte suficiente para matar uma vaca adulta ou um cavalo. Embora estejamos tratando de um tema de biologia, não de matemática, e as exceções à regra podem ocorrer.

As aves de criação (galinhas, patos, perus etc.) podem ser atacadas por várias espécies de carnívoros: onças, lobo-guará, jaguatiricas, os pequenos gatos silvestres, quatis, iraras etc. Lontras e ariranhas costumam causar problemas em criações de peixes. A irara, também conhecida como papa-mel, é um problema também para os apicultores.

Até os meados da década de 1980, a solução para os conflitos era a eliminação pura e simples dos predadores. Evidentemente, isso ainda ocorre no Brasil, mas, a partir desse período, a questão ecológica, incluindo a proteção dos animais silvestres, passou a ter destaque, levando a um maior cuidado no tratamento de problemas envolvendo a fauna silvestre.

Essa situação se consolidou em 1998, com a publicação da Lei 9.605, a Lei dos Crimes Ambientais, que estipulou ser crime matar um animal silvestre. A partir de então, a forma de resolver esses conflitos teve de ser reavaliada. Atualmente, a aproximação ao problema é determinada pela palavra "coexistência", como afirmado no segundo parágrafo. Uma coexistência pacífica, em que os proprietários não tenham perdas significativas e os carnívoros permaneçam vivos, nos seus habitats, se alimentando de suas presas naturais e não mais ataquem animais domésticos.

Lembro aqui o meu artigo anterior (Dimensões Humanas da Conservação e Manejo da Vida Selvagem) para afirmar que as ações para a solução dos casos de conflito devem partir do ser humano, por óbvio.

Os métodos empregados para evitar os ataques e a presença do carnívoro na propriedade são relativamente simples. Porém, eles encontram uma barreira: muitos proprietários ainda têm em mente a antiga forma de solucionar o problema, ou seja, a eliminação do predador, seja matando, seja acionando algum órgão público para retirá-lo do local.

Essas soluções simplistas batem de frente com a lei e com a prática: matar um animal silvestre é crime ambiental e o processo de captura e remoção de um carnívoro silvestre é muito complicado e nem sempre dá resultado. Mais: se o proprietário não implanta as medidas para proteger seus animais domésticos, sempre existirá a possibilidade de um novo predador ocupar o lugar do primeiro.
A solução passa, então, por dois passos, a partir dos quais duas linhas de ação serão tomadas. Esse será o assunto do próximo post.




Autor

Paulo Amaral

Médico Veterinário, Analista Ambiental do CENAP/ICMBio com especialização em Jornalismo e Divulgação Científica.

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